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Limpeza

Limpeza – Pandemia pode levar a obsessão

Especialistas alertam para os sinais de que preocupação com a higiene e limpeza passam dos limites para se tornar uma compulsão

Realizar a limpeza da casa pelo menos uma vez por dia já não parece suficiente para o publicitário Fábio Pires, 22. Desde que começaram a circular notícias sobre os primeiros casos de pessoas infectadas pelo novo coronavírus no Brasil, ainda em março, a preocupação com a higienização da casa redobrou. “Em geral, tenho limpado o apartamento duas vezes, mas tem dias que chego a fazer três pequenas faxinas”, reconhece. Às vezes, chega a interromper uma refeição para lavar a louça. “Se estou almoçando e terminei um copo de suco, paro de comer para lavar o copo e depois volto”, situa.

Portanto a mania de limpeza e de organização – “armários e geladeiras precisam estar sempre impecáveis” – já eram presentes em seu cotidiano pelo menos desde 2015, quando passou a viver sozinho. Mas algo saiu do controle desde nos últimos meses e, agora, Pires sente que o comportamento deixou de ser apenas uma característica pessoal e tem exigido mais tempo e esforço do que considera necessário para tarefas domésticas, além de ser algo que tem gerado uma sensação de angústia quando não consegue completar os vários procedimentos de higienização que se propõe para si mesmo ao longo do dia. No caso dele, o zelo pela organização do lar e o medo de contágio pelo novo coronavírus deflagraram uma disfunção psiquiátrica, o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).

“Pessoas mais ansiosas ou que aprenderam, por exemplo, por necessidades de trabalho a se organizarem dessa forma, podem manifestar mania de limpeza. O que é diferente do indivíduo com TOC, que normalmente apresenta pensamentos, imagens ou impulsos repetitivos, intrusivos, que invadem a consciência acompanhados de grande ansiedade”, explica o psiquiatra Tasso Amós. Além dessas obsessões, “boa parte dos pacientes desenvolve compulsões, popularmente chamadas de mania, que são comportamentos repetitivos diversos – como conferências exageradas, organização e limpeza extremas – com a ideia de evitar ou aliviar a ansiedade”, completa.

Mais de 4 milhões de brasileiros sofrem com o TOC, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), que também informa: a doença está entre as dez maiores causas de incapacitação no mundo. E a pandemia pode, de fato, agravar os quadros dessa disfunção psiquiátrica. “O aumento da ansiedade em relação ao novo coronavírus pode alimentar a obsessão por não se contaminar e desencadear compulsões”, analisa Amós.

Mais atenção à limpeza virou regra

Psiquiatra e integrante da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Christiane Ribeiro lembra que, neste momento, é natural que as pessoas fiquem mais tensas e com medo. “Com a necessidade de desinfecção constante, de uso de álcool em gel e com a maciça campanha de lavagem das mãos, percebemos que os cuidados dedicados à limpeza se ampliaram para a população como um todo”, avalia.

Uma observação que pode ser percebida até mesmo pelo aumento de preços de produtos de higiene, conforme detalhou um estudo da Euromonitor. Analisando preços e a disponibilidade de produtos no e-commerce no Brasil, México e Estados Unidos, entre os dias 5 e 26 de abril, foi possível perceber que o aumento da demanda encareceu itens como desinfetantes, que estão custando 15% mais nos mercados brasileiros. Sabão e lenços umedecidos estão 21% e 19% mais caros, respectivamente.

Portando, em se tratando de uma preocupação que se tornou mais generalizada, é preciso atenção para diferenciar a simples mania de limpeza do TOC. Um sinal de alerta, sugeridos por Tasso Amós, é a repetição de gestos e os exageros de higiene – como exceder-se na limpeza da casa, lavar as mãos repetidamente, causando até ferimentos. O medo de sair às ruas é outro sinal de que é preciso buscar ajuda.

Christiane lembra, ainda, que nem sempre a doença é causada por medo de vírus e bactérias. “Alguns pacientes acreditam que a mãe deles vai morrer se não cumprirem um certo ritual, como lavar um prato três vezes, por exemplo”, aponta.

Fato é que a pessoa com TOC “convive com o medo constante, com pensamentos e compulsões que atrapalham o indivíduo a concentrar em suas atividades cotidianas, o que pode prejudicar o desempenho de trabalho”, sinaliza Amós. A ansiedade e a autocobrança provocadas pelo transtorno ainda são geradores de estresse, de mau humor e chegam a deprimir. “Pessoas com a doença podem se isolar e ter dificuldades para se relacionar”, diz. Caso de Fábio Pires, que assume: teria dificuldades em dividir a casa com pessoas que não tivessem hábitos parecidos com o dele.

Sintomas se iniciam já na infância

Acometendo cerca de 2,5% da população mundial, o TOC é mais comum entre pessoas jovens, surgindo no final da adolescência ou mesmo na infância.

As razões para o desencadeamento do transtorno não são cientificamente atestadas, mas há indícios que apontam, ainda sem um consenso, que a doença pode estar relacionada a traumas desenvolvidos em situações de acidentes ou de estresse. Fábio Pires, por exemplo, reconhece que adotou uma série de protocolos de higienização doméstica depois de uma conturbada passagem por uma república, como são chamados espaços de coabitação estudantil.

Portanto o médico Tasso Amós observa que o tratamento para a disfunção é realizado por psiquiatras e psicólogos. “Normalmente, há necessidade de uso de medicamentos”, informa, lembrando que “não é algo simples de se resolver e nem sempre há cura, mas, com o tratamento, a maioria das pessoas encontra alívio e consegue ter uma rotina normal”.

 

Visto primeiro em: O tempo